sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Em grande no Alto de Lisboa


Restaurante Panorama


Poucos são os restaurantes que se podem gabar de possuir uma vista esplendorosa como este. Situado no último andar do Hotel Sheraton, um dos maiores edifícios de Lisboa, o Panorama não pretende ser apenas mais um restaurante de hotel virado para a clientela interna. As obras de remodelação de que o hotel foi alvo, em 2007, transformaram-no numa referência “trendy” da capital e tiveram um efeito semelhante no restaurante. E as coisas nem começaram muito bem neste ponto. Declarações precipitadas sobre a ambição de conquista de estrelas Michelin a curto prazo, ainda o restaurante mal tinha aberto, colocaram a fasquia demasiado elevada a um jovem Chef, Henrique Sá Pessoa, que iniciava ali uma nova etapa com uma equipa a necessitar de rodagem e entrosamento. As reacções não se fizeram esperar e as referências negativas leram-se e ouviram-se por aí. Felizmente esse passo em falso foi superado. O Henrique saiu para abrir o Alma, onde faz neste momento um enorme sucesso, e Leonel Pereira substitui-o à frente da cozinha. Seguiu-se um período discreto em que pouco se ouviu falar deste espaço, o que permitiu ao novo Chef afinar e desenvolver as suas propostas. Leonel Pereira não é propriamente um novato, antes pelo contrário. No seu currículo constam passagens por Paris, Veneza, Algarve e Brasil onde, neste ultimo país, como responsável pela cozinha dos hotéis Pestana, foi considerado Chef revelação do Ano por uma grande referência local, o Guia 4 Rodas. Talvez por influência de todos estes sítios por onde passou a sua cozinha de autor é uma cozinha do mundo em que produtos de várias proveniências se cruzam numa fusão equilibrada, sem números de circo.
Suba-se então ao último andar, saia-se do elevador e dê-se de caras com a vista panorâmica sobre a cidade. À direita um piano transparente demarca a zona do bar (onde é permitido fumar). À esquerda, após o balcão, a sala de refeições. O Luxo impera e felizmente um certo bom gosto também. Cores sóbrias, iluminação exemplar e mesas à distância certa. Sobre as mesas - bem atoalhadas - loiça, copos (para água) e talheres, tudo Christofle.  
Com esta envolvente e com um menu cheio de propostas sugestivas é quase criminoso não optar pelo menu de degustação. O de 5 pratos custa 49€ e vale a pena. Na noite em que jantámos, há cerca de um mês, a sessão teve um começo auspicioso com um carpaccio de vieiras e ananás como entretém de boca. De seguida, de entrada, um tártaro de robalo com ovas de tobiko (peixe voador), funcho e cerefólio, servido com um gaspacho de morangos. A profusão de elementos poderia colocar em risco sabores mais delicados, como os do robalo. Mas isso não aconteceu e cada ingrediente teve o seu papel sem anular o outro. Aliás este princípio foi válido para os restantes pratos. Ao contrário de uma tendência actual mais minimalista, Leonel Pereira utiliza bastantes elementos em cada prato mas consegue fazê-lo quase sempre de forma harmoniosa (e também com sentido estético apurado), como aconteceu também com o prato seguinte, Lagostins salteados com cristais de cítricos, geleia sólida de alvarinho perfumada com baunilha e falsa maionese de melancia. No Robalo cozinhado em vácuo com água do mar e salicórnias, creme de topinambours e (cogumelos) pleurotus, a profusão de elementos foi mais contida, o que permitiu uma maior expressão ao sabor delicado do peixe. Como prato de carne tivemos um Carré de leitão desossado com batata nova confitada em azeite de baunilha e acompanhado de um puré de nectarinas. Pena que o puré não tivesse dado o contraste cítrico necessário a tão forte conjugação com a baunilha a sobrepor-se em demasia. O que valeu foi que para desenjoar foi-nos servida uma sobremesa light : Bouquet de frutas - morangos, framboesas, mirtilos, maças e figos -, folhas e flores sobre creme de papaia e nêspera.
Em termos de vinhos o serviço foi correcto: boas opções na carta, temperatura certa, bons copos). A acompanhar o menu bebeu-se um Covela branco 2007, embora o leitão necessitasse de algo mais robusto. Por último, de referir que fomos atendidos por uma equipa de bom nível profissional que ajudou a completar o bom momento de refeição neste espaço de características únicas.   

Tártaro de robalo com ovas de tobiko , funcho e cerefólio,  gaspacho de morangos



Carré de leitão desossado, batata nova confitada em azeite de baunilha, puré de nectarinas



Bouquet de frutas, folhas e flores sobre creme de papaia e nêspera
(Preço da refeição descrita + couvert, água e cafés: 141€/2 pessoas)
Contactos: Hotel Sheraton Lisboa, Rua Latino Coelho 1 - Lisboa ; Telefone: 213120000
Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) em 24 Outubro 2009

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Guia de Vinhos Rui Falcão 2010



A Edição de 2010 do Guia de Vinho do Rui Falcão, com mais de 4000 vinhos classificados, acaba de sair. Este ano mais cedo, este é o segundo guia de vinhos a sair para o mercado, depois do de João Paulo Martins.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cantina vencedora


Ambientes descontraídos, petiscos na mesa, bons preços. Há mais um lugar em Lisboa muito recomendável para quem aprecia a fórmula. Trata-se da Cantina, no fabuloso espaço da Lx Factory (só é pena a inglesada, apesar de se perceber as alusões warholianas), perto do Largo do Calvário, com as suas lojas e ateliers, destacando-se a livraria Ler Devagar, onde não se deve perder a visita, no piso superior, às engenhocas do artesão italiano Pietro, com explicação do próprio. Fui jantar duas vezes à Cantina, a segunda na semana passada, e gostei muito. A começar pelo óptimo pão, acabado de cozer no forno a lenha, os enchidos de entrada, as tostas com escabeche de coelho, a raia frita, o pato assado, o arroz de carqueja com vitela barrosã. Tudo muito bem feito e saboroso. Só para se ter uma ideia, na última vez, éramos uns oito ou nove à mesa, bebemos, é claro, o vinho da casa servido a jarro (há outros, de marca, mas aqui não me faziam sentido), pagámos 15 euros por cabeça.
O lugar está decorado caoticamente, aproveitando peças antigas, com um bom gosto impecável, à noite fica cheio e é muito bem frequentado, com clientes animados e satisfeitos. Conversei brevemente com José Bengaló (espero não estar a escrever mal o nome), um profissional experiente e bem disposto, que creio já ter estado nas equipas de Justa Nobre e Vítor Sobral, entre outros, e fiquei com a melhor das impressões. A ideia, disse-me ele, é mostrar pratos bem portugueses que fujam à vulgaridade dos "pratos do dia" que se vêem de Norte a Sul do País. Convém reservar: 91 2292105.
Nota: fotografia roubada à Time Out. Espero que não se importem.

Embirrações XXIII

Director, ou melhor, "diretor" da revista brasileira Prazeres da Mesa, Ricardo Castilho diz-nos que "não suporta frango".

sábado, 24 de outubro de 2009

Sábado - Guia de Restaurantes 2009



A Sábado pediu aos Chefs Fausto Airoldi, José Avillez, Marco Gomes e Vitor Sobral que elegessem os 25 restaurantes da sua preferência. No fundo, como refere Edgardo Pacheco no texto de abertura, "pedimos que indicassem os restaurantes onde comem quando estão de folga".  Temi que pudesse ser uma "panelinha" de elogios entre pares. Mas, na generalidade, as escolhas pareceram-me genuínas e com vontade de dar a conhecer de tudo, do lugar mais sofisticado ao mais simples.

Em simultâneo foi pedido também a cada um que indicasse quem são os novos valores da cozinha portuguesa que irão marcar os próximos anos. Aqui ficam os eleitos dos Chefs (alguns já serão mais consagrados do que propriamente "novos valores"):

  Vitor Sobral:
  • António Nobre - Degust'Ar,  Évora
  • Henrique Mouro - Club,  Vila Franca de Xira
  • Júlio Vintém - Tomba Lobos, Portalegre
         (os 3 foram também escolhidos por José Avillez)



 Fausto Airoldi:
  • Alexandre Silva - Bocca, Lisboa
  • Henrique Sá Pessoa - Alma, Lisboa
  • Ljubomir Stanisic - 100 Maneiras, Lisboa
            (os 2 ultimos foram também escolhidos por José Avillez e por Vitor Sobral)


    
  José Avillez
  • David Igrejas - Foral da Vila, Cascais
  • João Antunes - Vin Rouge, Cascais
  • João Sá - G spot, Sintra
             (João Antunes foi também escolha de Fausto Airoldi)


 
   Marco Gomes
  • Isabel Vitorino - Papa Boa, Guimarães
  • Ivo Loureiro - Azeite e Alho, Apúlia
  • Jorge Coimbra - Castas e Pratos, Peso da Régua
  • Renato e Dalila - Ferrugem, Famalicão

O Guia pode ser consultado aqui

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Low-cost vínico?


Sim, sim, bem sei que o termo “low cost” não é de agrado geral e que se presta a interpretações mais ou menos duvidosas, mas o vocábulo é suficientemente explícito para me ajudar numa breve e simples reflexão. Porque é que a oferta gastronómica se adaptou tão depressa, e tão radicalmente, ao conceito, expresso na diversidade de restaurantes de autor que abrem portas oferecendo refeições cuidadas a preços mais que sensatos… enquanto a oferta vínica tarda em abraçar o conceito ajustado ao vinho? Quanto tempo mais tardarão a despontar os vinhos de autor “low cost”?

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Um português a aprender no El Bulli

A culpa é minha por dar à política uma atenção que se calhar ela não merece, fazendo com que nos últimos tempos tenha andado algo distraído. Por isso, apesar de leitor assíduo do Fórum de Gastronomia da Nova Crítica, só depois da Paulina Mata me ter alertado num comentário a um post que aqui escrevi, é que fui ver este tópico. De facto, depois de José Avillez, que mostrou ter aproveitado bem o tempo que por ali passou, temos agora outro jovem cozinheiro português, Frederico Ribeiro, a estagiar no El Bulli (em cima, a foto na célebre cozinha-laboratório do restaurante catalão). Aliás, o Frederico está a relatar a sua experiência em local próprio: http://www.fredericoribeiro.com/.
Conheci o Frederico Ribeiro de forma curiosa. Há quase um ano, acompanhei os sete chefes de Portugal que se apresentaram no Lo Mejor de La Gastronomia (Bertílio Gomes, Fausto Airoldi, Henrique Sá Pessoa, José Avillez, Ljubomir Stanisic , Luís Baena e Vítor Sobral), em San Sebastian, e aproveitámos para ir almoçar ao Martín Berasategui. Foi uma refeição extraordinária e, no fim, ao visitar a gigantesca cozinha (creio que cerca de 500 m2), qual não foi o nosso espanto quando fomos interpelados em português pelo Frederico que por lá andava a estagiar (sei que, depois disso, a Marta da equipa do Bertílio, agora na Casa da Comida, também lá esteve) e tivemos uma conversa muito simpática, onde percebi que, apesar da juventude, ele tinha as ideias bem arrumadas.
Depois disso, também soube agora, já esteve no Fat Duck, de Heston Blumenthal, e agora o Bulli, de Ferran Adrià. Ou seja, em cerca de um ano trabalhou nas equipas de três dos melhores restaurantes do mundo. Um currículo espectacular, que creio não ter paralelo em Portugal. Por outro lado, uma prova que temos entre nós jovens cozinheiros que vão fazendo o seu caminho na melhor cozinha a nível internacional e só por absurdo tal não acabará por nos beneficiar aqui em Portugal. Para já, vamos acompanhar a carreira do Frederico, esperando que ele sirva de exemplo para outros, e desejar-lhe toda a sorte do mundo.

Faz sentido...



... muito sentido!

P.S o Eat Local, não a ligação à Hellmann's

O Jacinto em Ipanema


O Jacinto, na parte velha de Telheiras, é um dos melhores restaurantes de Lisboa para quem gosta de ver a cozinha portuguesa próxima da tradição, mas fugindo aos lugares-comuns, com ambição de qualidade e sem se refugiar na economia do tipicismo, das travessas de inox e dos azulejos rascas na parede. Mesmo assim tem uma excelente relação qualidade/preço e um serviço, inclusive de vinhos, de grande mérito. Tive lá excelente jantar recentemente e pelo obreiro desta casa de referência, Luís Cardoso, fiquei a saber que no início de Novembro vão abrir um restaurante em plena Ipanema, na Rua Vinicius de Moraes, que se chamava Montenegro quando o poeta que agora lhe dá nome avistou lá a célebre Garota de Ipanema. Para quem está mais familiarizado com a cena carioca, vai ficar onde outrora esteve a casa do cozinheiro francês Olivier Cozan, terá 40 lugares, e é do tipo "bistrô", com forte presença de vinhos e pratos simples e saborosos.Se dependesse de mim, chamar-se-ia também Jacinto, e acho que os cariocas iriam adorar o nome, mas devido à parceria com a distribuidora de vinhos Grand Cru, terá essa designação francesa.
Pelo mesmo Luís Cardoso, soube também que o projecto que tinha em conjunto com Luís Baena, de abrir um restaurante em casa vizinha, ficou pelo caminho. Pelo que me constou de outras fontes, este abrirá, espera-se que em breve, o seu restaurante em Lisboa, mais precisamente em Santos-o-Velho, no espaço onde funcionou o Omnia.

domingo, 18 de outubro de 2009

Procura-se exorcista




Neste fim de semana tive uma experiência com vinhos velhos para esquecer. E nem eram particularmente velhos. Com excepção de um Vinho do Porto sem data, o mais antigo era de 1999. No entanto segundo alguns entendidos todos eles revelavam capacidades de envelhecimento quando sairam para o mercado. Na 6F, o primeiro a ir ao saca rolhas, um Chateauneuf-du-pape, E.Guigal 99, mais valia que não tivesse ido ou que tivesse sido vedado com screwcap, tamanho era o "rolhão" que apresentava. Ok, foi um acidente que acontece aos melhores, velhos e novos. Mas segundo o meu amigo RC, que o trouxe,  há pouco tempo tinha aberto outra garrafa que embora não padecesse do mesmo problema de rolha já estava mais para lá do que para cá. De seguida abrimos um Matallana 2000, um Ribera del Duero de Telmo Rodriguez. No nariz os aromas a fruta compotada e notas de torrefacção seguiu-se uma nova meia desilusão. Na boca, sobretudo no final, um ligeiro "vinagrinho". Para acabar houve ainda lugar para uma curiosidade que não era suposta ser mais do que isso: um Porto comprado num recente leilão, em Lisboa. Apesar de não ter data de colheita ou de engarrafamento parecia ser bem velho. O meu amigo sabia que quando o arrebatou nesse leilão por 15€, nada de muito excitante iria encontrar. Apesar de tudo ainda foi possível descobrir alguns aromas de frutos secos típicos de um tawny velho. 
No dia seguinte foi a minha vez de ir jantar a casa de amigos e resolvi levar um Quinta dos Carvalhais encruzado de 2003. Ainda nessa tarde tinha lido as melhores referências sobre a capacidade de envelhecimento deste vinho, num artigo de Padro Garcias no Fugas (Público). Quando meti o copo ao nariz  não queria acreditar no que me estava a acontecer. Visivelmente irritado enviei um SMS ao meu amigo, com quem tinha partilhado as más experiências na véspera, a descrever-lhe a experiência  olfactiva  que variou entre banana e melão podre, com rebuçado dr Bayard estragado. Como é possível tanto azar com garrafas que estiveram sempre bem guardadas em caves climatizadas? Por coincidência em ambos os jantares houve um primeiro vinho que deixou todo o mundo encantado: o Soalheiro Primeiras Vinhas 2007. Terá este magnifico Alvarinho capacidades de ensombrar a que está à sua volta?
 Não é que seja supersticioso mas vou contratar um exorcista que me receite umas mezinhas para colocar na cave de guarda. E já agora, quando voltar a abrir um Soalheiro, não abro mais nada de seguida, ponto. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A Alemanha ficou mais perto


As coisas começam a mudar na distribuição de vinhos estrangeiros em Portugal. O movimento ainda é incipiente, incerto nos primeiros passos, sem rumo certo e definido. O que, sim, é certo, é que as águas começam a agitar-se de vez. Primeiro foi a La Fattoria com a distribuição de vinhos italianos, num portfólio que compreende um par de nomes consagrados em compita com vinhos menos mediáticos. Agora fiquei a saber da existência da Wine4Friends, um importador dedicado por inteiro aos vinhos alemães, centrado por ora nas regiões de Pfalz e Rheinessen, com incursões momentâneas por outras denominações. Tenho aqui dez vinhos para provar, na sua maioria de produtores que desconheço, e em breve espero poder acrescentar algumas considerações sobre a selecção.
Esperemos que outros se lancem igualmente nesta aventura do conhecimento, oferecendo vinhos alternativos e originais no mercado português.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Pub Grátis (screwcap?)





 Caso unico em que o vedante é bem mais interessante do que o conteúdo. Estará a cortiça ainda mais em risco?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Guia Michelin: Big in Japan


Jiji Press/AFP/Getty Images


E o desfile de estrelas da Michelin continua. Depois de Nova Iorque foi agora a vez de Kyoto. O  guia estreia-se nesta cidade e consegue logo 110 estrelas num total de 85 os restaurantes distinguidos. Destes, 6 obtêm as tão cobiçadas 3 estrelas aproximando-se de Tóquio e de Paris, cidades que detêm o maior número de restaurantes com 3 estrelas: 9 . Recorde-se que há dois anos Tóquio deixou meio mundo boquiaberto quando a estreia do guia vermelho na cidade lhe concedeu a honra de passar ser a cidade mais "estrelada" do mundo, com um total de 227 estrelas (contra as agora 110 de Kyoto, 99 de Paris, 71 de Nova Iorque e 47 de Londres). Para ler mais, aqui.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

(À)Provados

Já são conhecidos os 73 restaurantes que irão passar à 2ª fase do concurso, Lisboa à Prova. Ver listagem aqui

Quem não tem cão, caça com gato...


O trocadilho é simplesmente brilhante. E, para mal de todos os pecados e para engrossar a vergonha gaulesa, o vinho é mesmo um genérico vin de table francês!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Os 100 produtores do ano

É sempre motivo de orgulho e regozijo nacional quando produtores pátrios são destacados e enaltecidos pela imprensa internacional. O contentamento é ainda maior quando descobrimos que a prestigiada revista norte americana Wine&Spirits inclui algumas adegas nacionais entre os cem melhores produtores internacionais do ano. Este ano, o destaque vai por inteiro para a Aveleda, Fonseca, Niepoort, Quinta do Noval e Quinta do Portal, os cinco eleitos portugueses pelos jornalistas da Wine&Spirits Magazine.

sábado, 10 de outubro de 2009

Embirrações XXII

André Magalhães, responsável pelo restaurante do Clube de Jornalistas (e Larousse Gastronomique à distância de um telefonema), não suporta a cenoura em farripas que por aí tanto se encontra em cima de folhas de alface.

Recomendando uma recomendação

A não perder o artigo de hoje no Fugas, do Público, assinado por David Lopes Ramos, sobre a Casa da Calçada, do chefe Ricardo Costa, em Amarante. Sendo escrito por quem é, que diz que saiu de lá em "estado de euforia", é uma satisfação enorme ver mais um jovem cozinheiro português (que terá 30 anos no máximo) com este nível, a merecer inteiramente a estrela Michelin que reconquistou para a casa no ano passado. Tenho que ir experimentar (só lá estive no tempo de José Cordeiro), mas se o David Lopes Ramos recomenda desta maneira, podem ter a certeza que é de visita obrigatória.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Visita à nova casa de Bertílio Gomes

Nesta quarta-feira, ainda antes de começar a Restaurant Week, fui finalmente jantar à Casa da Comida, uma das minhas prioridades desde que soube que Bertílio Gomes era agora o responsável pela cozinha, como chefe consultor. Tenho uma grande admiração pelo trabalho que ele desenvolveu no Vírgula, pela maneira serena como encara a sua profissão, pela humildade inteligente de aprender com os outros. Recordo a propósito um extraordinário almoço que tivemos no ano passado, juntamente com os chefes portugueses que participavam no Lo Mejor de La Gastronomia, em San Sebastián, no Martín Berasategui, e do genuíno entusiasmo que Bertílio demonstrou, sem se sentir diminuído por mostrar admiração. Via-se que estava cada vez melhor, em pleno crescimento, e continuo a achar que, aos 32 anos (creio que é essa a sua idade), é um dos chefes com maior futuro. O fim do Vírgula fez-me temer que ele, que tem família e contas para pagar, se encaixasse nalgum hotel onde a ditadura do food cost e da necessidade de agradar a gente de todos os cantos do mundo, destruísse uma carreira que se antevê brilhante.
Felizmente, surgiu a oportunidade da Casa da Comida e a primeira coisa que me agradou ao chegar a este magnífico espaço junto ao Jardim das Amoreiras, foi ver que havia várias mesas cheias, apesar da noite ser de semana e tempestuosa, algumas com turistas, mas também com portugueses. Ao longo da refeição, outros clientes foram chegando e senti no ambiente aquele ruído especial de conversas animadas e boa disposição, que a comida tanta vezes desperta. É uma das coisas que sempre verifico quando vou a um restaurante, seja uma tasca seja um três estrelas, e raramente esse "barulho de fundo" dá indicações erradas.
Marquei mesa com um nome falso e não vi o Bertílio por lá. Por isso, tenho quase a certeza de que ninguém me reconheceu ou deu "tratamento especial". Na lista, encontrei já vários pratos assinados por Bertílio, incluindo o célebre polvo assado com batata doce de Aljezur (um produto Slow Food, de que ele tem sido um dos principais divulgadores) tão apreciado pelo Miguel Pires, mas acabámos por pedir, éramos três à mesa, duas entradas: "mozzarella" de queijo de Arraiolos com maçã e pastel de caracol com caldo de rabo de boi. Nos principais, bacalhau à Zé do Pipo na versão do chefe, garoupa assada com cupeta de porco ibérico e molho de ervilhas (na foto, de Nuno Correia, feita para o Grande Livro dos Chefes, de Fátima Moura) e pintada com caril e lima e maçã braseada. Na sobremesas, doce conventual do século XVII, que veio com um gelado de maçã.
Provei de tudo e a nota final é francamente positiva, principalmente devido à estupenda garoupa , numa combinação interessantíssima (já tinha provado uma versão parecida, com cherne, que Bertílio tinha apresentado num jantar em San Sebastián) e plena de sabores, e também pela perfeição do prato de bacalhau. Já as entradas precisam claramente de ser melhoradas e a pintada foi mesmo um prato falhado, com a ave um pouco seca e monótona, sem se notar o caril ou a lima anunciados. Óptima sobremesa, uma espécie de "queijo" de amêndoa de sabor subtil, com recheio de ovos e gila. Acompanhava um bom gelado de maçã que me disseram ser feito pelo Bertílio (ele tem uma gelataria em Alhandra, juntamente com a sua mulher), havendo aliás vários outros gelados à disposição.
A carta de vinhos, embora eu perceba pouco do assunto, pareceu-me muito boa, cheia de opções que começam geralmente pelos 15 euros e vão até vinhos de topo com preços a condizer. Há também muitos vinhos a copo. Escolhi um Lagoalva da casta alfrocheiro de 1999, que me pareceu raro de encontrar, e porque gostei imenso de um outro varietal alfrocheiro deste produtor, creio que de 2004. Custou 25 euros e estava óptimo, servido à temperatura correcta. Mas não sei se toda a gente tem estes gostos. Nos vinhos, limito-me a dizer o que gosto e o que não gosto, e não sei dizer mais nada. Até porque tenho aqui o Rui Falcão e o Miguel Pires a vigiarem-me as asneiras...
O serviço é desempenhado por pessoal veterano, nem sempre bem informado sobre os pratos, mas muito cortês, profissional e atento. Destaque para o responsável pelo serviço de vinhos. No final, pagámos pouco mais de 130 euros, mas se tivesse havido mais uma entrada e duas sobremesas, é natural que fosse aos 150, o que mesmo assim é uma boa relação qualidade/preço. Das outras vezes que lá tinha ido, embora tenha gostado, achei sempre um pouco caro demais. Desta vez, foi ao contrário. Não há menu degustação, mas não sei se fará falta. É até uma maneira de se distinguir de outros restaurantes. Fiquei sobretudo satisfeito por ver que a Casa da Comida, que tanto prestígio alcançou nos anos 80 e 90, está a dar a volta por cima e que encontrou em Bertílio Gomes a pessoa certa, embora se note que o seu trabalho está apenas no início e que, como ele saberá melhor do que ninguém, ainda há aspectos a melhorar. Juntamente com o Tavares e a Tágide, dois outros clássicos recentemente recuperados, é mais um restaurante "antigo" de Lisboa que volta ao leque de escolhas dos gastrónomos dos nossos dias. Vou voltar de certeza e cheio de vontade de provar outros pratos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Uma semana gastronómica de dez dias


Começa amanhã a segunda edição do Lisboa Restaurant Week, que se prolonga até dia 18 deste mês. Mesmos preços da primeira (20 euros), mas mais restaurantes, totalizando 42. Uma boa iniciativa que parece ter agradado a clientes e responsáveis pelos restaurantes, inclusive a cozinheiros que gostam do desafio de trabalhar para um público mais alargado, eventualmente menos familiarizado ou mais preconceituoso com determinados tipos de cozinha. Segundo sei, a organização está consciente de que houve algumas confusões com as reservas na primeira edição (em parte decorrentes do grande êxito que tiveram, com uma procura enorme) e vão tentar evitar que se repitam. Convém também que os restaurantes correspondam, apresentando propostas válidas e que mostrem o estilo culinário que praticam. Se não conseguem fazê-lo dentro destes preços, é melhor não participar. Afinal, se não servir como divulgação dos seus restaurantes para o resto do ano, dificilmente se compreende, para a maior parte dos participantes, as vantagens de servir refeições a 20 euros. Ver aqui lista dos restaurantes participantes e outras informações.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Três estrelas para o Daniel


Acaba de sair o novo guia Michelin de Nova Iorque e a grande novidade é a conquista da terceira estrela por parte do restaurante Daniel, do famoso chefe francês Daniel Boulud. Fica assim resolvida uma das classificações mais polémicas do guia, que quando se estreou foi muito criticado por dar apenas duas estrelas a este restaurante, um dos favoritos dos gastrónomos da cidade. O restaurante de Daniel Boulud vem assim juntar-se ao Jean Georges, Le Bernardin, Per Se e Masa, os outros três estrelas novaiorquinos.

domingo, 4 de outubro de 2009

cozinha japonesa sem atum azul?


Foto: Ko Sasaki para The New York Times

Nos últimos anos tem se vindo a multiplicar a quantidade de restaurantes japoneses. Se há 10 anos, em Lisboa, se contavam pelos dedos de uma mão, hoje em dia devem existir à vontade, uns 40. Ao fenómeno não tem sido alheio a popularidade que o sushi, sashimi e afins têm vindo a ganhar junto dos portugueses. É claro que a popularidade fez baixar a qualidade média, sobretudo desde que muitos restaurantes chineses  se reconverteram ao fenómeno de forma a escaparem à crise e à má fama deixada por uma inspecção da asae.
Mas o propósito deste post não é falar das novas hordas de consumidores que emergem os rolos de peixe e arroz em molho de soja - para arrepio das regras mais elementares -, nem de como estes restaurantes se tornaram barulhentos com jantares de grupo que lembram os dos restaurantes chineses dos anos 80/90.
Snobeira à parte, o propósito deste post deve-se ao artigo publicado no New York Times (e que o jornal i, publicou na passada 6ªF) a propósito da pesca desmesurada que tem vindo a reduzir drasticamente uma das espécies mais apreciadas nesta cozinha, o Atum azul. Quando um exemplar deste peixe, que pode atingir 200kg, chega a ser comercializado por mais de 100 mil euros percebe-se que a corrida ao ouro teria que provocar estragos. Se na Europa já propostas para limitar a sua captura no Atlântico, no Japão, que consome 80% de todo o atum de qualidade pescado no mundo, as autoridades continuam a assobiar para o ar. A culpa deve-se aos grandes arrastões de pesca industrial, acusam os pescadores de Oma, cidade piscatória de onde é originário o mais famoso e caro atum azul do mundo (para mais ler o artigo do NYT, aqui).

sábado, 3 de outubro de 2009

Embirrações XXI

Fernando Melo, jornalista e crítico gastronómico da revista Wine, tem o tofu como ódio de estimação. E não poupa nas palavras: "imagino-o como proteína-base do Purgatório!"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A saída de Giorgio Damasio do Lapa Palace


Foram 15 anos a cozinhar no Lapa Palace, que terminaram agora, mas o chefe genovês Giorgio Damasio, de 42 anos, garante-me que, felizmente, quer ficar em Portugal e está em "período de reflexão" até ver o que vai fazer. Devo-lhe refeições magníficas, sobretudo no tempo em que o hotel era dirigido por um profissional e gourmet extraordinário, o veneziano Sandro Fabris, que, juntamente com a sua mulher, Doris, responsável pelas relações públicas, fizeram do Lapa Palace um dos locais mais agradáveis de Lisboa. Este excelente casal está, já há algum tempo, a dirigir o histórico hotel Reid's, no Funchal, de onde me chegam relatos sempre a exaltar as suas qualidades e simpatia.
A saída de Damasio justifica-se facilmente com a mudança de proprietário do Lapa Palace, vendido pela Orient Express ao grupo português Olyssipo. Deixou de haver restaurante Cipriani e cozinha italiana. Parece que Hélder Santos, antigo "braço direito" de Damasio, ficou a tomar conta da cozinha, que parece que aposta nos sabores portugueses. Ficaram lá também outros membros da equipa, o que é bom sinal e motivo para ir experimentar. Giorgio Damasio pareceu-me feliz com o desenlace da situação, bem disposto e com vontade de começar uma nova fase da sua carreira.
Durante cerca de dez anos com Franco Luise, depois, com a saída deste, assumindo ele a chefia executiva da cozinha do hotel, Damasio foi fundamental para o trabalho que se desenvolveu no Lapa Palace. Um trabalho que incluiu também convites a nomes importantes da cozinha mundial para virem a Lisboa apresentar a sua cozinha, trabalhando com a equipa do hotel. Jacques Le Divellec, Dieter Koschina, Marc Meneau, Claude Troisgros, Sérgio Vieira foram alguns dos que me lembro assim de repente. Sandro Fabris explicou-me um dia as razões desta iniciativa: não só trazia prestígio para o hotel, como ajudava a dar formação à equipa. "Em vez de mandar os cozinheiros do hotel fazer formação durante umas duas ou três semanas em restaurantes no estrangeiros, são os chefes desses restaurantes que vêm até cá. Acho que até poupo dinheiro..." Ao ler estas palavras, percebe-se bem a diferença que faz trabalhar com bons profissionais. Tenho a certeza que Giorgio Damasio soube tirar partido deste convívio e, com o seu enorme talento, tem tudo para continuar a oferecer-nos a sua óptima cozinha.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Fancy Fast Food

A coisa vem dos EUA, esse país onde se consegue fazer dinheiro com as coisas mais inacreditáveis,  e tem por detrás uma ideia muito simples: pega-se num menu de uma cadeia de fast food, desmonta-se e recria-se. O resultado pode ser visto aqui (donde retirámos as duas fotos que publicamos abaixo) e aqui (com direito ao modus operandi filmado). Com sentido de humor o autor do blog deixa o aviso logo no inicio: "Yeah it's still bad for you - But see how good it can look!"







E Agora António?

Recupero este post que escrevi , em 2008, no Chez Pirez, e volto a publica-lo agora após a triste noticia sobre a morte do António Carvalho. 

Domingo, Março 23, 2008




Ontem fui visitar o António Carvalho, personagem que apenas conhecia de algumas palavras trocadas no reboliço do El corte Inglês, onde costumava deslocar-se sempre que lhe pediam que viesse promover os seus vinhos. Por vezes, gostava de ficar a observar, à distância, a reacção dos pseudo entendedores (daqueles que dizem que vinho é tinto e de preferência bem morninho) perante o olhar vivo e desconcertante do António, quando este os convidava a provar os seus brancos da Estremadura, região que não tem o pedigree do Douro ou do Alentejo, e em que as garrafas não ostentam, no rótulo, o nome Quinta de qualquer coisa com um brazão.

Acontece que o António Carvalho é autor e produz dois vinhos de culto portugueses, O Casal Figueira Tradition e o Casal Figueira Vindima Tardia. Na verdade não produz, produzia.
Infelizmente, agora em que as suas vinhas estavam a atingir a maturidade, vão ser substituídas por plantações de morangos industriais, para regozijo dos impacientes da fruta de época.
Ontem, quando o visitei, não lhe perguntei o porquê de sucumbir a esse poder agro-industrial, logo ele que nunca se cansou de explicar as virtudes da produção do seu vinho segundo processos biodinâmicos.
Ainda tentei puxar para a nostalgia mas percebi que estava em vias de cair no ridículo. Afinal, o clima era de festa e todos os que quiseram aparecer mostravam-se felizes por ali estarem em convívio, provando, bebendo e comendo, sem pressas, como se amanhã fosse apenas mais um dia normal.

E agora António?
“ – Agora… agora começa-se tudo de novo, noutro sitio.”


terça-feira, 29 de setembro de 2009

Um amigo...

Crédito foto: revista WINE – A Essência do Vinho

Hoje morreu um amigo, um homem verdadeiro e apaixonado, simples e sem lérias, um homem que viveu toda a vida de forma autêntica e descomplexada, sempre com um sorriso de eterna candura. Além de bom amigo e de bom homem, foi autor de alguns dos brancos mais originais de Portugal, os vinhos de Casal Figueira que tanto elogiei ao longo da minha vida profissional de jornalista especializado em vinho. A ti, António Carvalho, deixo uma sentida homenagem.

Especial de corrida


Homenagem a Neil Ashmead, um dos fundadores da Elderton, produtor australiano, lendário pela paixão assolapada por carros desportivos, é o GTS (Grand Tourer Shiraz).

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Privilegiados sejamos


Restaurante Feitoria


Se tivesse que utilizar uma palavra para descrever o Hotel Altis Belém seria “privilégio”. Privilégio dos proprietários que conseguiram edificá-lo em lugar tão especial da frente ribeirinha lisboeta; privilégio dos arquitectos que souberam tirar partido do local, acrescentando valor; privilégio dos hóspedes que têm à sua disposição um dos hotéis mais belos e com melhores vistas da cidade; privilégio de todos aqueles que passaram a ter um espaço de usufruto para um copo ao fim da tarde ou uma refeição simples na esplanada; e, por ultimo, privilégio de quem aprecia uma refeição de (boa) cozinha de autor e o pode fazer num local singular como este.
O autor dá pelo nome de José Cordeiro e tem no currículo a conquista de uma estrela Michelin, em 2005, aquando da sua permanência na Casa da Calçada, em Amarante. Ele o responsável máximo pelos espaços de restauração do hotel, mas é no restaurante principal, Feitoria, que dá largas à sua imaginação e nos provoca os sentidos com a sua cozinha inspirada em várias latitudes - da inspiração regional portuguesa, à italiana, passando pelo Japão, ou por terras gaulesas – ou não estivéssemos num local simbólico onde navegadores partiram à descoberta.
O espaço fica numa parte mais discreta do edifício. No interior a decoração contemporânea mantém a coerência das zonas públicas do hotel mas ganha aqui uma maior sofisticação, sem se tornar pesada ou ostensiva. No exterior, a esplanada abrigada em deck de madeira com vista para uma espécie de relvado em socalcos, com o Tejo ao fundo, permite-nos a fruição do espaço envolvente.  
Esta descrição parece tirada de um daqueles anúncios que se desenrolam sob o signo da perfeição mas que a todo momento esperamos um desacerto. Só que neste caso os desacertos foram mínimos. Houve uma entrada de caranguejo de casca mole (15€) cujo a confecção (panada) e a presença de sementes de sésamo acabou por abafar o seu sabor. De resto praticamente nada a apontar. Se não vejamos: Já falámos do espaço. Acrescentamos agora o serviço afável, eficiente e profissional. Dispensámos a carta de águas, mas não a dos vinhos, nem o seu serviço (excelentes copos, variedade, preços aceitáveis, temperaturas correctas). Nada disto valeria  se não tivéssemos uma ementa estimulante dificultar-nos a escolha, numa noite em que a harmonia foi uma constante.
Neste cenário o menu de degustação de 4 pratos (40€) pareceu-nos uma boa opção - existe outro de 5, por 50€. Ambos incluem a habitual oferta do chefe (amouse bouche) o que poderá levar-nos a dizer que isso é batota. Só que neste dia serviam um pequeno naco da famosa carne de vaca japonesa de Kobe, conhecida pela sua macieza e sabor. O prato seguinte, vieira corada com risotto de morangos selvagens, nas mãos erradas, podia ter dado num grande disparate. Acontece que a utilização de bons produtos, técnica na execução e talento na descoberta e conjugação dos elementos fizeram deste prato uma referência (e os morangos selvagens, mais acídulos, fazem toda a diferença). Aliás esta descrição facilmente se aplica às outras propostas degustadas. Das mais depuradas, como no cherne em papillote, timbale de batata ratte e (mini) legumes salteados, às de sabores mais complexos - mesmo que em parte familiares – como os do tornedó de novilho enrolado em bacon, tosta de gema e trufas, espargos verdes e chips de legumes.  
Se nas sobremesas o cone de morango com morangos fatiados foi prejudicado pela textura pouco cremosa do interior, já a tortinha de Azeitão com citrinos e gelado de tomilho superou as expectativas -  mesmo para quem habitualmente não acha grande graça a esse doce regional.
Por ultimo não podemos deixar de destacar também a criatividade no empratamento e o bom gosto e variedade da loiça escolhida. Quando o conteúdo é de nível superior, a encenação ganha um papel relevante no resultado final. José Cordeiro, ou Chefe Cordeiro, como gosta de assinar, aporta pela primeira vez em Lisboa para dar a conhecer o seu mundo num local único. O privilégio é nosso. O mérito é dele e de toda a equipa.


Preço desta refeição com vinho (Monte dos Cabaços branco 07), couvert,água e café: 60€/pax 


Contactos: Hotel Altis Belém, Doca do Bom Sucesso, Lisboa ; Telef: 210400200 (http://www.altishotels.com/)


Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) em 29 Agosto 2009

Carne de kobe sobre melancia


Caranguejo de casca mole com sementes de sésamo, sopa fria de manga e ar de laranja


Vieira corada com risotto de morangos silvestres




Cherne em papillote aromático, timbale de batata ratte e rabo de boi com legumes salteados



Tornedó de novilho nacional enrolado em bacon, tosta de gema e trufas e espargos 


Cone de morango, crocante de amendoim e avelã com texturas de morango



Tortinha de Azeitão sobre saladinha de citrinos, areia de pistáchios e gelado de tomilho

domingo, 27 de setembro de 2009

Embirrações XX

Consta que o Nuno Diz, que na Confraria (York House) faz o melhor hamburger de Lisboa (mas que não merece ser conhecido apenas por isso - nem pelo facto do J. Quitério ter embirrado com ele - o hamburger), embirra com pimentos. Garanto desde já que a fonte não veio do Palácio de Belém (até porque o Fernando Lima está numa cave impedido de enviar emails).

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Um Outlook na Feitoria de Belém

Até recentemente não tinha uma opinião formada sobre a cozinha de José Cordeiro. Fixei-lhe o nome quando se tornou conhecido por ter conquistado uma estrela Michelin na Casa da Calçada em Amarante e soube que depois esteve ligado a um restaurante no Porto cujo conceito achei estrambólico, para não dizer outra coisa (o W'duck onde havia sanitas a fazer de cadeiras). Nunca cheguei a ter a oportunidade de ir à Casa da Calçada e com os relatos opostos que me chegaram, fiquei na mesma. Na única vez que estive na belíssima esplanada do hotel Altis Belém, neste Verão, também nada de especial se passou – até achei a carta pouco interessante. Apesar de tudo, fiquei com curiosidade de experimentar o Feitoria, o restaurante de top do hotel onde o Chefe Cordeiro “expõe” a sua cozinha de autor. E…vale mesmo a pena.
O relato dessa experiência pode ser lido amanhã, Sábado, no Suplemento Outlook do Diário Económico.



P.S1. deixo um “chips” de entrada para abrir o apetite. São especialmente para o Duarte Calvão que tem a mania que conhece as melhores batatas fritas de Lisboa. Ok que estes “chips” não são só de batata, mas mesmo assim são dignos de fazer inveja aos verdadeiros apreciadores).

P.S2 porque é que se tem ouvido falar tão pouco deste restaurante e deste Chefe?

USB (Port)


É, seguramente, uma das formas mais inteligentes de contornar a proibição legal de usar o nome “Port”, denominação de origem protegida, nos vinhos licorosos californianos… basta rabiscar o símbolo universal de um USB port e omitir a palavra! Já agora, para os perfeccionistas, o código em binário da videira significa “Peliter Station”, o nome do produtor desta imitação de Vinho do Porto.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Made in Japan


Nem quero imaginar como será a ressaca...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Belém Top 50

É um dado consumado que os ingleses adoram listas. Semana sim, semana sim no Times Online existe um top qualquer que pode ir das 50 melhores praias, aos 50 melhores sitios para observar gambuzinos (pensando bem, por cá, revistas como a Visão ou a Sábado padecem do mesmo síndrome semanal - com a agravante de serem publicações semanais). Agora acabo de dar de caras com mais um top qualquer coisa, desta vez no Guardian: "The 50 best things to eat in the world, and where to eat them". Para gáudio lusitano o número 15 é nosso e são os de cá - e não os daquela pastelaria/leitaria de Portobello onde em tempos vi filas para os comprar (e que por acaso até são bons).  

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Gasolina gourmet?

Ou simplesmente um momento de profunda e total falta de inspiração?

domingo, 20 de setembro de 2009

Finalmente, um rosado recomendável!


Não foi nada fácil, mas encontrei finalmente um vinho rosado que me satisfez realmente, o Quinta da Giesta rosé 2008, do Dão. Não tenho qualquer pejo em afirmar que é um dos melhores vinhos rosados de Portugal, e é bom poder comprovar que os rosés não têm de ser doces ou enjoativamente frutados para serem interessantes. De cor rosada viva e brilhante, é um rosé seco e vivo, frutado mas sem exageros, incrivelmente fresco e revigorante, complexo qb, alegre, seco, versátil… como todos os vinhos rosés deveriam ser. Perfeito para a mesa, perfeito para a esplanada, com ou sem companhia.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Orçamentos

Um dos desígnios dos vinhos nacionais é a necessidade imperiosa de exportar, de conquistar novos mercados, de exportar para sobreviver. Com um mercado nacional cada vez mais contraído, a exportação tornou-se numa necessidade real, indispensável para a sobrevivência da viticultura nacional. Segundo o célebre estudo Porter, e depois de muitos ensaios e análises de empresa de consultoria, os mercados prioritários para a afirmação dos vinhos nacionais são a Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra. Claro que as propostas, como todas as propostas, são discutíveis, e poderemos considerar que a ausência de referências explícitas ao Brasil e Angola são faltas incompreensíveis num estudo desta dimensão.
Porém, é verdade que o mercado inglês, apesar de extremamente difícil, é a placa giratória do vinho, o centro de todas as decisões e tendências, capaz de afirmar ou destruir marcas de forma global. Manter uma presença forte em Londres é imperativo para qualquer país produtor, como quase todos os restantes países produtores o descobriram há muito tempo. Claro, essa presença só fará sentido se o orçamento dedicado à promoção for consentâneo com o objectivo e consistente no tempo, mantendo a visibilidade e promoção durante muitos anos. Os números podem ser assustadores. Soube-se agora, por exemplo, que o Chile conta com um orçamento de 450.000 libras só para a promoção dos vinhos chilenos em Inglaterra, com fundos garantidos pela associação de produtores chilenos (divididos de acordo com o volume de vendas), com uma pequena ajuda do governo central. A Nova Zelândia dispõe de um orçamento semelhante, financiado apenas pelos produtores., tal como a África do Sul com um orçamento de £300.000. Depois chegam os pesos pesados Califórnia com um orçamento de £615.000… e Espanha com £1.000.000 para gastar em promoção!
Felizmente existe a Itália, país que, tal como Portugal, vive de eventos casuísticos e da carolice e empenho pessoal de alguns funcionários. País que tem também a tradição anual de oferecer jantares opíparos para a imprensa… na última semana fiscal, como forma de justificar os fundos que sobraram do orçamento…

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Miss carta Outono/Inverno

Ora aqui está uma boa ideia do Zé Tomáz Mello Breyner e do Nuno Diniz.

Pena que não pretendam seleccionar antes a pior receita. Os meus raviolis de abóbora, que também ficaram conhecidos na primeira e unica tentativa por "rissóis de nhanha de abóbora", ganhariam o prémio. De certeza.

Embirrações XIX

O chefe Leonel Pereira, do Sheraton Lisboa, está num espectacular momento de forma e ir ao Panorama, no último piso do hotel, é uma experiência gloriosa, quer pela cozinha quer pela vista. Mas não é que o chefe, nascido no Algarve, odeia caracoleta assada? A seguir, revela ele, ovos moles, para espanto dos mais gulosos.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Castro Elias abre ao jantar


A partir desta quinta-feira, o De Castro Elias (na foto), que o chefe Miguel Castro e Silva abriu há cerca de três semanas, passa a abrir também para jantar. Agora, o horário é das 12 h às 23 h, com a cozinha sempre aberta a pedidos dos clientes, salvo às segundas-feiras, quando serve apenas almoços das 12 h às 15 h, e aos domingos, dia de descanso. Com um êxito retumbante neste período de abertura, que Miguel Castro e Silva classifica como "intenso", vamos ver como funciona à noite, já que aquela zona da cidade (Av. Elias Garcia, junto à Gulbenkian), não é muito procurada para jantares. Mas o chefe está, justificadamente, optimista, e não há nada como tentar. Se ele fosse dar ouvidos a todas as vozes negativas que há por aí, estava bem arranjado.

Vinho estranho?


Pois é, isto das traduções nem sempre funciona bem. Quando o proprietário desta loja parisiense decidiu passar a vender vinho estrangeiro para satisfazer o grande número de clientes que passavam no bairro não sabia onde se ia meter. Para anunciar tal decisão no novo toldo resolveu redigir o facto em inglês, socorrendo-se do dicionário de bolso para a tradução. Desconhecia é que “étranger”, para além de estrangeiro, também significa estranho. Imaginem qual foi a versão que escolheu…

domingo, 13 de setembro de 2009

Embirrações XVIII

João Pedro Diniz do blog Ardeu a Padaria embirra com a embirração dos chefes americanos com a "proteína no prato". Na verdade não embirra, odeia mesmo. E ameaça: "Venham cá ver o meu cozido de morcelas que eu lhes conto a proteína. Palhaços!"

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Uma mineira na Tasca

Acabo de voltar de um almoço na Tasca da Esquina, onde hoje e amanhã o chefe Vítor Sobral recebe a colega mineira Mônica Rangel (na foto), cujo restaurante Gosto por Gosto, em Visconde de Mauá, terra conhecida pela sua beleza e pelas peregrinações de hippies tardios, é considerado de visita obrigatória pela crítica e gastrónomos. A simpática chefe brasileira diz que quase tudo o que ali serve é produzido por ela, localmente, mais um motivo para ir conhecer a casa. Por enquanto, tive que contentar-me com um óptimo caldinho de feijão com torresmo, bolinhos de carne seca e de camarão, mandioca e queijo (o açoriano Ilha a substituir o de Minas), frango com quiabo, que não aprecio, mas que estava muito bom, e um original puré de ora-pro-nobis, uma planta brasileira muito interessante, Nos doces, uma espécie de leite de creme queimado com farinha de milho, absolutamente delicioso. Vou tentar voltar hoje o jantar, para provar outros pratos brasileiros de que tenho saudades, como o escondidinho com carne seca, mas o desgraçado do Vítor Sobral diz-me que "talvez" consiga mesa, mas só depois das 21.30 h. Se não tiver sorte, o remédio é preparar-me para ir a Mauá.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

I Confess...


Em Rio Maior, onde nasci e vivi os primeiros 20 anos da minha vida, lembro-me de ter contraído dois vícios. Se hoje é fácil de explicar o primeiro, o snooker e as infindáveis partidas na Cepa ( que me encheram a caderneta de faltas na escola) já o segundo é mais complicado. Como é que alguém pode ter sido agarrado a um bolo de nome pirâmide, ainda hoje me parece difícil de entender. A verdade é que tinha mesmo dificuldade em resistir a um bolo que era feito dos restos de todos os outros. Aquilo sabia-me mesmo bem. Mas não era qualquer pirâmide. Tinha que ser a da Bellaria – a pastelaria local cujo o nome nunca ninguém na terra entendeu a razão. Aquela mistura da cereja cristalizada no topo, conjugada com o chantilly - tipo espuma de barbear -, a cobertura manhosa de chocolate e a massa interior húmida – a tal feita dos restos –, provocavam-me um efeito nas pupilas gustativas que me faziam voltar no dia seguinte. Felizmente não foi necessário recorrer à metadona, nem a nenhum grupo de pirâmides anónimas para deixar o vicio, nem tão pouco me recordo de como o deixei - provavelmente algo de mais interessante deve ter aparecido naquele momento da adolescencia. Mas que ele existiu, tenho que confessar que sim :)))

Tudo isto surgiu hoje ao encontrar, por acaso, esta excelente recolha de Fabrico Próprio. Precisamente no dia em que a melhor cozinheira de doces (e não só) do mundo completou 70 anos. Parabéns, mãe Luz.

Este post meio lamechas teve o patrocínio de meia garrafa (para ¾) de Porto Vintage Fonseca, 2007

P.S. e sim mãe, também confesso: era eu quem roubava os garrafões de Água do Luso lá de casa - e uma vez ou outra, também os dos vizinhos - para ficar com o dinheiro do depósito e assim alimentar o vicio.