E assim se passaram cinco dias na Madeira cujo o objectivo era o de dar tréguas ao corpo. Mente sã em corpo bem nutrido. Não é assim o provérbio?
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Ponha aqui o seu pezinho
E assim se passaram cinco dias na Madeira cujo o objectivo era o de dar tréguas ao corpo. Mente sã em corpo bem nutrido. Não é assim o provérbio?
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Em grande no Alto de Lisboa
Poucos são os restaurantes que se podem gabar de possuir uma vista esplendorosa como este. Situado no último andar do Hotel Sheraton, um dos maiores edifícios de Lisboa, o Panorama não pretende ser apenas mais um restaurante de hotel virado para a clientela interna. As obras de remodelação de que o hotel foi alvo, em 2007, transformaram-no numa referência “trendy” da capital e tiveram um efeito semelhante no restaurante. E as coisas nem começaram muito bem neste ponto. Declarações precipitadas sobre a ambição de conquista de estrelas Michelin a curto prazo, ainda o restaurante mal tinha aberto, colocaram a fasquia demasiado elevada a um jovem Chef, Henrique Sá Pessoa, que iniciava ali uma nova etapa com uma equipa a necessitar de rodagem e entrosamento. As reacções não se fizeram esperar e as referências negativas leram-se e ouviram-se por aí. Felizmente esse passo em falso foi superado. O Henrique saiu para abrir o Alma, onde faz neste momento um enorme sucesso, e Leonel Pereira substitui-o à frente da cozinha. Seguiu-se um período discreto em que pouco se ouviu falar deste espaço, o que permitiu ao novo Chef afinar e desenvolver as suas propostas. Leonel Pereira não é propriamente um novato, antes pelo contrário. No seu currículo constam passagens por Paris, Veneza, Algarve e Brasil onde, neste ultimo país, como responsável pela cozinha dos hotéis Pestana, foi considerado Chef revelação do Ano por uma grande referência local, o Guia 4 Rodas. Talvez por influência de todos estes sítios por onde passou a sua cozinha de autor é uma cozinha do mundo em que produtos de várias proveniências se cruzam numa fusão equilibrada, sem números de circo.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Privilegiados sejamos

quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Não é defeito, é feitio
Se fores a Vila do Bispo tens que ir ao Café Correia, ouvi várias vezes ao longo destes anos. Quase sempre seguido por um aviso: “ a D. Lilita tem um estilo muito particular de receber. É pá mas vale a pena”. Quis o destino que neste Verão, ao passar pela vila algarvia desse de caras com uma das muitas placas de “há percêves” que pululam por ali. E onde estava esta? Precisamente na montra do Café Correia.
Uma olhada pela ementa fixada à entrada e percebe-se logo (passe o trocadilho) que aqui não há lugar para grandes complicações, nem grandes descrições. Temos Lulas à Correia, Polvo em Tomate, Camarão Guisado, Massa de peixe, Frango em tomate, Coelho e Borrego, ambos também à Correia. Duas refeições depois entendemos a justiça do sufixo, “à Correia”, em vários pratos. É a mão sábia do proprietário da casa que torna especial aquilo que noutro lado poderia ser apenas banal. Mas não nos antecipemos a concluir porque este não é um local para pressas. Nem para indecisões, ou pedidos de poucas gramas. É que a experiência podia ter dado para o torto logo no inicio. Queríamos perceves mas não tínhamos muita noção do peso. Arriscámos 150gramas... o que fomos fazer! A resposta veio de pronto: “Oh! 150 gramas, nem pensar. Tenho que ir cozê-los e menos do que 250 não faço”. “Que não seja por isso” - se rápido pensei, mais rápido disse, recordando-me do aviso do meu amigo. Mas não aprendi…”e como são as Lulas à Correia?”, perguntei (estupidamente, claro). “Então é lulas com batata e arroz”. Pois claro, o que mais poderia ser?

Este episódio tem a sua graça porque no seu todo as coisas resultam bem. É como se tivéssemos sido transportados para um almoço de domingo em casa daqueles avós rezingas com talento especial para a cozinha mas já sem muita paciência para receber. Encerrado o capítulo das perguntas, após uns breves instantes, começaram a chegar à mesa os pedidos: uns percebes da melhor qualidade (carnudos, com aquele característico aroma a maresia, como se tivessem sido acabados de apanhar) e umas lulas grandes, tenras, recheadas com arroz e com os próprios “cornichos”, tudo num conjunto de apuro perfeito. Como gostámos resolvemos voltar para jantar (“pelos vistos não vos devo ter tratado muito mal” diz-nos a D. Lilita em jeito de troça como quem diz: “passaram no teste”). Pena que uma indisposição do Sr. Correia nessa tarde o tenha afastado da cozinha, deixando a tarefa para a anfitriã. Não que esta não tenha dado conta do recado mas notou-se, no apuro, que a mão não era a mesma. E assim nem o Frango com Tomate, nem o Coelho (guisado) à Correia brilharam como as lulas do almoço. Nas sobremesas não havia muito por onde escolher. Ficámo-nos por uma boa tarte de alfarroba, presença corrente nesta zona e por uma honesta torta de amêndoa. No que diz respeito a vinhos, não se deixe enganar pela simplicidade do local, uma vez que este Café Correia tem fama de possuir uma boa garrafeira. Pena que a carta seja tão caótica e rasurada. Valha-nos a existência de algumas boas espécies mais antigas e a preços bastante aceitáveis (bebemos ao jantar, o tinto Vinha da Nora 2001). Para quem acha que exagerei acima num ou outro pormenor, deixo o “retrato à la minute” exposto na parede: “ Ao visitante (…) recomenda-se alguma habilidade no relacionamento com a anfitriã e dona do estabelecimento. Missão absolutamente imprescindível para ter acesso a um dos locais onde melhor se come em Portugal”. Passe o exagero, a prosa continua, deixando algumas regras para ser-se bem recebido: “1º a porta para o almoço abre exactamente às 13.00h; 2º espere junto ao bar até que lhe seja indicada mesa; 3º nada de pressas; 4º não traga guias turísticos à vista; 5º não pergunte se há isto ou aquilo” e, por último, “Agosto não é a melhor altura” (Ass: Tó M. – capitão da areia). Felizmente Setembro está à porta e desejo lá voltar. (preço médio por refeição completa, 20€/25€, com vinho)
Contacto: Rua Primeiro de Maio 4 - Vila do Bispo ; telef: 282 639127
Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) em 29 Agosto 2009
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Vini Vidi Vici
Gaspacho de Cozido à Portuguesa e seu Gelado de Carnes ao fumo
De todos os pratos que tivemos oportunidade de degustar este último foi o único que não convenceu. Houve a preocupação em criar um equilíbrio de sabores entre os elementos, mas no teste do palato a aprovação tornou-se difícil. Nada que desarmasse e impedisse de continuar a desafiar algumas convicções como, por exemplo, o facto de não gostar de caracóis. E aqui foi mais por engano do que masoquismo que acabei por ver à minha frente aquilo que na ementa vinha descrito como, “A Vieira, a Caracoleta Moura e seu Caviar” (sim, de caracol!). Na verdade o conjunto resulta numa boa soma das partes graças também ao precioso auxílio de um linguini acídulo (pela integração de limão) como acompanhante.
A Vieira, a Caracoleta Moura e seu Caviar
Xadrez de Sardinha e Espada Preto
Nas sobremesas o cunho internacional é mais vincado mas a influência portuguesa também marca presença. Das quatro provadas destaco o “Chá de vinho do Porto com especiarias, figos roti e gelado de azeite fumado” (ver foto abaixo), uma amostra do portfolio do chefe pasteleiro que se mostrou ao nível do seu par.

Em matérias de vinhos, existem algumas falhas que deveriam ser corrigidas: a carta é relativamente curta, não apresenta datas de colheita e praticamente não inclui vinhos generosos. De resto, copos de qualidade ( Schott Zwiesel de topo de gama) temperaturas de serviço e preços, correctos - bebeu-se um Chablis, La Chablissiene Vielle Vignes.
Tenho noção que não é muito sensato colocar já nos píncaros um restaurante aberto há tão pouco tempo, ainda para mais num país onde a consistência e a consolidação de um espaço num nível elevado, é ténue. Contudo arriscamos o título na esperança que o “Vici” se concretize em pleno e por muito tempo.
(Preço médio para uma refeição completa de entrada, prato e sobremesa: 50/60€, com vinhos)
Contactos: Tivoli Victoria –Vilamoura; Tel: 289 317 000 ; GPS: 37º 06' 15. 66" N, 08º 08' 30. 41" W
Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) em 15 Agosto 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Cantar de Gallo
Um jovem certamente com problemas de memória jantava relaxadamente num restaurante de luxo, no Funchal. Já no final da refeição, e depois de acabar o Madeira que estava a beber, chama a empregada e comenta: "a sua colega foi muito pouco generosa. Pode servir-me um pouco mais?". De pronto a empregada responde-lhe: "olhe, a minha colega era eu e servi-lhe a quantidade correcta".
Não estou certo se a empregada zelava pelo nosso bem estar - achando que poderia ter que conduzir nas sinuosas estradas da ilha -, ou se apenas mostrava rigor e profissionalismo. Pela forma como correu a refeição estou inclinado a aceitar ambas as hipóteses.
Estamos no Funchal, a escassa distância do mítico Hotel Reids, mais precisamente no Il Gallo D’Oro, o restaurante do Hotel Cliff Bay. Não sei se por influência de tão ilustre vizinho ou se apenas por intenção em manter o espírito de outros tempos exige-se, aos homens, o uso de casaco (embora deixem ao nosso critério o nó na garganta). Não é nada de mais, muitos outros lugares do mundo fazem-no, alem de que não existe nenhum polícia de costumes que nos obrigue a mantê-lo vestido durante a refeição. E ainda bem, porque seria um factor de distracção numa noite quente como aquela que tivemos oportunidade de usufruir numa varanda com vista privilegiada para o mar.
O Il Gallo D’Oro é o mais recente restaurante português e o único na Madeira a fazer parte da constelação do Guia Michelin ao ter sido galardoado com 1 estrela, na sua última edição. Por este motivo as expectativas eram elevadas.
Com a carta à frente, constamos que os dois pratos principais do menu de degustação são ambos de propostas do mar (curiosamente o mesmo sucedeu, alguns dias depois, já em Lisboa, na apresentação à imprensa da interessante cozinha do Xôpana, o restaurante do também madeirense, Choupana Hills). Nada a opor, afinal estamos numa ilha e passa-se bem sem carne (para quem fizer questão existe na carta essa possibilidade) pelo que fomos na onda. Antes do primeiro prato tivemos direito a uma ostra como “entretém de boca”. Para quem é adepto da sua forma mais simples, ao natural, a vinagreta que lhe escondia a tipicidade no paladar não terá sido do maior agrado. Felizmente a entrada que se lhe seguiu foi de elevado apreço (na apresentação, na confecção e na conjugação de sabores). Tratava-se de Foie gras em três formas diferentes. A primeira como recheio de uma alcachofra; a segunda com geleia de vinho do Porto; e a terceira em escalopes salteados, entremeados com maçã a dar leveza e contraste ao conjunto.
Um consommé de crustáceos, perfumado com erva caninha e gengibre foi prato que se seguiu. Boa matéria prima -vieiras e camarão jumbo escalfados – trabalhada no ponto certo. Depois, duo de linguado com raviolis de tinta de choco, creme de manjericão e mexilhões. Prato um pouco confuso, com demasiados elementos e sabores algo dissonantes (o recheio dos raviolis, o creme de manjericão...).
Para finalizar, de sobremesa, tivemos um interessante suspiro crocante recheado com mascarpone e morango marinado com lima e hortelã.
No que diz respeito aos vinhos, acompanhámos a refeição com o branco Cova da Ursa 2008 e, com a sobremesa, um Blandy’s Madeira, malmsey 10 anos (o tal da ”amnésia”) - ambos servidos à temperatura correcta, em bons copos e a preços(altos) em linha com o que é normalmente praticado em Portugal, neste tipo de restaurantes.
Temos então no panorama madeirense um restaurante galardoado com uma estrela Michelin. O Chefe Benoit Sinthon revela neste menu dotes à altura do galardão. No entanto, pela amostra, diria que ao mesmo nível desta sua alta cozinha de base francesa e de influência mediterrânica existem, pelo menos, uma meia dúzia de restaurantes no país a quem não lhes calhou a mesma sorte.
Contactos: Hotel Cliff Bay, Estrada Monumental 147, 9004-532 Funchal. Tel: 291707700 (http://www.portobay.com/)
Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) em 1 Agosto 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Sala com vista
Não há nada mais irritante do que ir a um restaurante com uma localização privilegiada e ser confrontado com a mediocridade. Como se esse factor por si só dispensasse o conteúdo. Como se a vista nos embriagasse os sentidos e não necessitássemos mais do que o básico para reconfortar o estômago. Que atire a primeira pedra quem não teve já este sentimento ao sair de um miradouro, ou de uma esplanada à beira Tejo - só para dar dois exemplos em Lisboa.
Foi por isso com agrado que há dias saí do Tágide com um sentimento de satisfação. Não porque neste local, com vista impar sobre a cidade, as propostas gastronómicas sejam fantásticas, mas porque, pelo menos, proporcionam uma refeição acima da média e por um preço atractivo.
O Tágide fica no Chiado num edifício que remonta à época pombalina. Enquanto restaurante existe desde 1973 tendo sido recentemente alvo uma remodelação na decoração, onde elementos contemporâneos passaram a conviver com valores históricos, como os lustres e os painéis de azulejo, ambos do século XVIII.
O restaurante funciona de terça-feira a sábado ao almoço e sextas-feiras e sábados também ao jantar. Existe um menu de almoço por 23€ (3 pratos) e um de jantar por 30€ (5 pratos). Com estes menus pretende-se uma boa aposta em termos de preço/qualidade, mas para quem quiser exceder-se um pouco mais tem à disposição, à carta, outras opções de escolha (mais em termos de pratos de carne, 6, do que de peixe, apenas 3 (aos quais acresce uma massa e um vegetariano, além das entradas e das sobremesas).
Neste local pratica-se uma cozinha de fusão de preponderância portuguesa, francesa, italiana e também de alguma influência oriental. No jantar que lá fizemos recentemente, a opção recaiu no menu. Primeiro, enquanto esperávamos a chegada dos pratos, fomos enganando a fome com pão e azeite e umas boas azeitonas marinadas com travo a orégãos e raspa de laranja.
Uma fresca e equilibrada Vichyssoise de camarão viria a ser o primeiro prato. Seguiu-se-lhe uma tosta com foie gras (“cuit”) acompanhada de figo, fresco e em compota, numa combinação agradável, embora algo comprometida por uma matéria-prima que não era de excelência, tal como não o era o lombo de robalo da proposta de peixe que veio de seguida. Neste caso, no entanto, é de realçar a excelente combinação com o acompanhamento de massa de arroz salteada com citronella, a dar um toque do sudoeste asiático ao conjunto. Como prato de carne tivemos bochechas de vitela com cannelloni recheados de puré de aipo bola. A cozedura lenta deu a devida maciez à carne e o acompanhamento, tal como no caso do peixe, revelou-se uma conjugação acertada, com o sabor particular do aipo a contrastar bem com o adocicado da carne. De sobremesa veio um gaspacho de frutos vermelhos com lima, demasiado ácido para o meu gosto.
O serviço e a parte dos vinhos são dois aspectos que devem ser melhorados. No primeiro caso o tempo de espera entre pratos deixou algo a desejar bem como um ou outro desacerto. No segundo, gostaríamos que o menu de vinhos que acompanha o menu de degustação fosse algo mais interessante do que a banalidade da trilogia Grandjó, Planalto e Esteva que nos serviram. É verdade que a carta de vinhos contempla várias opções de escolha, nomeadamente a copo. No entanto, mesmo tendo em mente o objectivo de se conseguir oferecer um preço de conjunto atractivo, existem outras hipóteses mais estimulantes. Por último deveriam ter maior atenção à temperatura de serviço dos vinhos, bem como aos copos (existem no mercado outros mais adequados por custo semelhante).
Apesar destes desacertos, facilmente remediáveis, o Tágide é um local a ter em conta. É que não é só uma questão de vista. Há na cozinha (e na equipa responsável) um esforço para superar a mediania predominante nos locais com localização privilegiada.
Contactos: Largo da Academia Nacional de Belas Artes, 18 e 20 (Chiado), Lisboa. (http://www.restaurantetagide.com/)
Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Diário Económico) em 18 Julho 2009
terça-feira, 7 de julho de 2009
Não deixem cair esta estrela
Não sou dado a místicas mas tenho que reconhecer que por vezes deparamo-nos com situações que tendemos a atribuir a fenómenos, digamos, paranormais. Ir a um restaurante mesmo que de topo e ter um atendimento impecável, sem uma falha, não é comum, pelo menos em Portugal. A estranheza começa pelo entusiasmo de viva voz de quem nos atende quando ligamos a reservar mesa. Depois, achamos que vamos ouvir um raspanete pela chegada com meia hora de atraso. Mas não, quando nos preparamos para pôr as culpas no GPS somos recebidos com um sorriso aberto por uma figura franzina que, pela voz, reconhecemos como sendo a mesma pessoa que horas antes nos atendeu o telefone. Susy Luginbühl é suíça e é ela a responsável pelo contágio no trato irrepreensível que toda a equipa dedica aos clientes deste espaço entre Vale do Lobo e a Quinta do Lago, onde se concentra, em férias, o equivalente a uma parte do PIB português. É provável que a hospitalidade não seja alheia aos clientes, nem tão pouco aos inspectores do Guia Michelin. Os primeiros enchem o pátio onde são servidas as refeições no período estival e voltam com frequência. Os segundos atribuem-lhe uma estrela de classificação há anos consecutivos. Na equação falta acrescentar o mais importante, a comida. Jens Rittmeyer foi durante anos parte do sucesso da casa. Acontece que este alemão regressou ao seu país e, em Março, para o seu lugar à frente da cozinha foi contratado Torsten Schulz, seu compatriota, vindo dos Estados Unidos, com passagem anterior pelo Nobu Armani de Milão. Aparentemente o tipo de cozinha praticada não sofreu alterações de maior. Continua a prevalecer a cozinha internacional de base francesa com toque mediterrânico onde se privilegia o uso de produtos de época e peixe da região.
O que não se esperava é que um dos frutos mais emblemáticos da região, o figo, fosse o elo mais fraco da noite. Não pela execução de três formas distintas a que foi sujeito na sobremesa – fatiado com calda por cima; em gelado; e em parfait -, mas pela falta de sabor (estávamos em Junho, muito no início da época do fruto). Em termos de vinhos a refeição foi acompanhada com um Covela branco, 2007 (26€) servido em bons copos e à temperatura adequada.
A continuidade dotrabalho de cozinha que projectou esta casa e a boa atmosfera que se sente - boa parte devido a um dos melhores serviços de que tenho memória - são razões mais suficientes para que este S. Gabriel continue a marcar pontos no panorama gastronómico nacional. Assim esperemos que os inspectores da Michelin, avessos a mudanças de maestros, pensem o mesmo e continuem a atribuir-lhe a tão cobiçada estrela que o espaço ostenta há alguns anos.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Pecados de um convento
Estamos na Madragoa, nos claustros do antigo convento das Bernardas, paredes meias com o Teatro das Marionetas. A Travessa encontra-se neste local há cerca de dez anos, mas a fama e parte da clientela é anterior, do tempo da Travessa das Inglesinhas. Os “culpados” dão pelo nome de Viviane Durieu e António Moita. Ela é Belga, está lá desde o início e nessa altura arregaçava as mangas na cozinha. Ele, português, entrou mais tarde no projecto e é quem faz as honras da casa. Com ele o peixe e a gastronomia portuguesa passaram a ter maior preponderância num menu base de cozinha internacional. No entanto, apesar da ementa variada muito do reconhecimento que ainda hoje goza, deve-se a um prato popular belga que continua a marcar presença aos sábados à noite: “les moules et des frites” (mexilhões com batata frita).
São 21h, relativamente cedo para um jantar de 6ªF. Talvez por isso, olhando em redor, percebe-se que a maioria dos clientes são estrangeiros, uns atraídos pelas referências em guias e revistas internacionais, outros, provavelmente, clientes habituais, membros da comunidade estrangeira residente no país. Não pertencemos a esta segunda categoria mas, apesar da nossa tez latina, passamos bem por membros da primeira. Ou pelo menos foi essa a sensação com que ficámos ao dirigirem-se a nós, mais do que uma vez, em inglês. Não se pense, contudo, que este traço cosmopolita seja intimidante. De todo. A Travessa é um local acolhedor onde somos bem servidos do princípio ao fim, mesmo quando, no final, é visível nos rostos de quem nos atende, o cansaço de dezenas de “piscinas” feitas, para lá e para cá, naquele espaço extenso.
Empada de perdiz
A Travessa não é do género de ter “entradinhas” na mesa à espera do cliente. Elas vão chegando em pequenos actos. Nesse dia havia ovas de peixe-galo - com outras de salmão pelo meio --, num tempero irrepreensível, entre poejos manjericão; pimentos de Padrón ; queijo de cabra panado com doce de framboesa e terrina de fígado de pato com doce de cebola. Num segundo acto, um naco de porco preto veio à mesa sendo fatiado à nossa frente (bom produto, exterior estaladiço e interior num ponto perto do limite). Para finalizar esta primeira parte, uma sopa de peixe-galo: cremosa, rica e leve - cumprindo assim o seu desígnio de entrada.
Por esta altura o restaurante já se encontrava cheio, com um equilíbrio maior entre nacionais e expatriados (termo que os anglo-saxónicos gostam utilizar para se referirem aos seus emigrantes de luxo), grande parte com ar de clientes frequentes.
Nos pratos principais, um primeiro ingresso em falso: uma raia “beurre noire” cujo a redução de balsâmico foi duplicada de vinagre. Acontece aos melhores. Reposta a situação, pudemos desfrutar de um peixe que embora confeccionado convenientemente voltou a sofrer com aquela redução. Não que a mesma estivesse incorrecta, mas porque veio desequilibrar, em termos de sabor, a conjugação entre os elementos clássicos da receita.
Com o prato seguinte, empada de perdiz, voltou-se ao melhor nível: recheio bem apaladado e generoso na perdiz, envolto em massa bem trabalhada.
O acompanhamento foi em parte comum aos dois pratos: batata primor assada; feijão verde salteado; esparregado; puré de nabo (com pimenta em demasia) – tudo acima da média. Com a empada, as melhores batatas “chips” de Lisboa: saborosas estaladiças, sem evidências do óleo da fritura (quer no palato quer à vista).
Nas sobremesas tivemos direito a uma récita de onde optámos por um praliné, versão bomba calórica, e uns mirtilos com creme de mascarpone.
O vinho que acompanhou a refeição (excepto sobremesa) foi o Castelo d’Alba Vinhas Velhas 2006, um belo branco encorpado que serviu de pau para toda esta obra (não tendo sequer vacilado com a redução de balsâmico).
(preço médio por refeição completa: 50€/pax com vinho)
Contactos: Travessa do Convento das Bernardas 12 Madragoa – Lisboa ; Telef: 213902034 (www.atravessa.com)
Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Semanário Económico) em 20 Junho 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
(En)Joy, by Koschina
A vida está cheia de acasos. Quis o destino que Dieter Koschina, então subchefe do Hilton Vienna Plaza, fosse a passar quando tocou o telefone. Do lado de lá uma senhora alemã procurava desesperadamente alguém que pudesse substituir o seu Chef de cozinha acabado de sair. O convite não era propriamente para si mas sentindo-se preparado e desejoso para aceitar qualquer convite que lhe parecesse credível, fosse onde fosse, decidiu arriscar e responder que era ele quem ela procurava. Passado algum tempo o jovem Koschina aterrava de malas e bagagens no pequeno hotel de charme da Praia da Galé. Ao entrar no seu “escritório” deparou-se com uma cozinha mais apropriada para uma casa de família: um fogão de 4 bicos, um frigorifico e um pequeno balcão, muito diferente da cozinha profissional exemplar que existe actualmente. Estávamos em 1989. Já havia ambição, mas de estrelas, por enquanto, só as do céu do Algarve. As famosas do Guia Michelin haveriam de surgir mais tarde: uma em 1995 e duas em 1999 - mantendo-se este estatuto, único em Portugal, até aos dias de hoje. A questão das estrelas Michelin é um assunto que todos os anos faz correr rios de tinta, sobretudo fora de França (critica-se as ausências injustificadas bem como a tendência para premiar as cozinhas de tendência francesa. Da crítica à tentativa de descredibilização vai normalmente um pequeno passo. Contudo, para irritação de muitos, continua a ser o guia de restaurantes de maior influência mundial, mesmo para quem o critica). Por cá, a polémica também subsiste mas são raros os que afirmam existir outro restaurante no mesmo patamar de excelência do Vila Joya. Mas este estatuto único não é fruto do acaso. Exige talento, dedicação, profissionalismo e, também, um grande investimento financeiro (só para se ter uma noção, entre cozinha, copa e sala, trabalham aqui 40 pessoas, para uma ocupação de 69 lugares).

Os pratos até têm nomes simples mas uma vez na mesa tornam-se num verdadeiro estímulo aos sentidos: sanduíche de linguado com alcachofras marinadas; sopa de alho selvagem com lombo de cordeiro, massa fina com esparguete de pepino e salmão fumado; pregado selvagem com cogumelos e espuma de açafrão e champanhe; mil folhas de framboesa e baunilha com gelado de verbena, são alguns dos exemplos que tivemos oportunidade de experimentar.

Na escolha dos vinhos a recomendação do Escanção mostrou-se preciosa dada a profusão de ingredientes da refeição. Apesar de estarmos num ambiente de várias nacionalidades, com muitos clientes habituados às principais referências mundiais, existe por aqui a tendência no aconselhamento do que de melhor se produz no nosso país, sobretudo em termos de gama média, média-alta. Para quem quiser troféus eles também existem e têm saída: do Barca Velha aos topos da Niepoort ou da Quinta do Crasto, passando por um Pétrus, um Château D’Yquem, um champanhe Krug ou um Porto Noval Nacional (para os obstinados do vinho aconselha-se uma visita à moderna cave onde são guardadas todas estas preciosidades).
Com este nível de oferta e de serviço não admira que os preços aqui praticados sejam de joalharia. Ainda olhámos várias vezes em redor para saber se estaríamos a ser alvos de algum tratamento especial, uma vez que estávamos ali como imprensa, a convite. No final confirmámos. Tivemos de facto um tratamento especial. O mesmo que todos os outros clientes.
(preço do menu de degustação: 135€,5 pratos; 155€, 8 pratos - sem vinhos)
Contactos: Praia da Galé, 8201 Albufeira; Telef:289 591 795 (www.vilajoya.com)
Texto publicado originalmente no suplemento Outlook (Semanário Económico) em 30 Maio 2009















