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domingo, 19 de julho de 2009

Histórias exemplares IV

Uma publicitária lamenta-se da dificuldade em conseguir ir ao El Bulli e de como gostaria de fazê-lo. Sugiro-lhe outros restaurantes espanhóis em que a cozinha de vanguarda é bem apresentada (Celler de Can Roca, El Poblet, etc) e onde é mais fácil arranjar mesa. Não parece muito interessada. "Eu assim ao restaurante mais diferente a que já fui foi a um em Paris onde era tudo às escuras e os empregados eram cegos", informa-me. "Também é uma experiência sensorial muito interessante. Nem me lembro do que comi, mas, realmente, aquilo é muito difícil de acertar".

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Histórias Exemplares III

Um jovem com memória de minhoca janta relaxadamente num restaurante de luxo, no Funchal. Já no final da refeição, e depois de acabar o Madeira que estava a beber, chama a empregada e diz-lhe: "A sua colega foi muito pouco generosa. Pode servir-me mais um pouco?". Ao que a empregada responde: "olhe, a minha colega era eu e servi-lhe a medida correcta".
Moral da história: se não consegue fixar a cara da empregada que o serve, começe a tomar comprimidos ou então solicite que deixe a garrafa na mesa.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Histórias exemplares II


Num almoço para qual fui convidado calhei numa mesa onde um gastrónomo encetou uma conversa comigo, falando de alguns restaurantes de renome internacional aos quais já tinha ido, exibindo até uma certa intimidade com alguns chefes. A certa altura, vem a pergunta inevitável:
- O que acha da Michelin em Portugal?
- Acho que as estrelas, daquilo que conheço, está bem atribuídas. Acho é que deveria haver outros restaurantes que também as deveriam ter - digo eu, recorrendo à resposta que costumo usar.
- E o que acha do Eleven?
- É um bom exemplo de uma estrela que está bem atribuída.
- Pois eu não acho nada. Um dia fui lá com o X [e a pessoa em questão, que estava também na mesa, assentiu, confirmando por antecipação a história que viria a ouvir], para o lançamento do livro do Y. Como chegámos um pouco mais cedo, pedimos um copo de vinho. E sabe o que o empregado nos respondeu? Que tinha ordens para só servir o vinho quando o Sr. Y chegasse...Acha que um restaurante com um serviço destes merece uma estrela?
De nada adiantou eu explicar que, apesar de não concordar com a atitude do empregado (ou de quem lhe terá dado a ordem), não me parecia razão suficiente para a retirada da estrela, que estas são atribuídas em função da cozinha e não do serviço ou da decoração (informação que pareceu surpreender o meu interlocutor), que a situação se tinha passado no andar superior, onde o Eleven organiza as refeições para grupos, e não na sala do restaurante...nada fazia demovê-lo, sempre com o assentimento do seu amigo X, de que o único restaurante com uma estrela Michelin de Lisboa deveria ser punido, quiçá fechado, por não lhe ter servido um copo de vinho quando ele queria.
Moral da história: noutros países e noutras cidades, ter restaurantes com estrelas Michelin é motivo de orgulho, sobretudo entre os seus gastrónomos. Em Espanha, por exemplo, às vezes com um exagero que também não quero para cá, se um restaurante tem "só" uma estrela, dizem logo que merece duas ou até três e queixam-se do "francesismo" dos inspectores que não reconhecem a qualidade da cozinha que se faz no seu país.
Em Lisboa, desde que recebeu a estrela, o Eleven, em vez de ser saudado, começou logo a ser visto com desconfiança, numa atitude típica do género: "olha, o que é que eles são mais que os outros?". Para isto não ficar demasiado longo, nem vou enumerar a quantidade de críticas (geralmente relacionadas com o serviço) que ouvi, como se ter uma estrela Michelin fosse ter três, ou como se fosse obrigado a ser um restaurante perfeito, onde cada refeição tivesse que nos levar ao sétimo céu. Como a grande maioria dessas pessoas não aplica o mesmo grau de exigência quando vai a outros restaurantes, quer em Portugal quer no estrangeiro, só posso concluir que gostamos de punir quem tem êxito, quem ousa se destacar da mediocridade geral. Parece que não ficamos descansados enquanto não formos um país em que a sua principal cidade não tem nenhuma estrela Michelin.
Declaração de interesses: há uns anos, escrevi um livro sobre "A cozinha de Joachim Koerper" e fiquei amigo deste admirável profissional, cuja vinda para Lisboa devia ser acarinhada por todos nós.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Histórias exemplares I

Um conhecido gestor português, ainda novo, rico, sofisticado e viajado, revelou a um não menos conhecido gastrónomo:
- A minha mulher e eu adoramos trufas brancas. Já não passamos sem elas.
- Ah sim? E onde é que as costumam encontrar? São tão raras...
- No Olivier. Ele tem todo o ano e vamos lá quase todas as semanas. Estamos viciados naquele aroma..., confessou o gestor, com ar cúmplice.